Horizon Zero Dawn: Pós apocalipse e Religião

| Introdução

Este post foi baseado no artigo “Things Greater than Thou’: Post-Apocalyptic Religion in Games” escrito pelos autores Lars de Wildt , Stef Aupers, Cindy Krassen and Iulia Coanda . A instituição responsável é a Katholieke Universiteit Leuven da Bélgica.

Falaremos sobre detalhes da história de Horizon Zero Dawn, então este texto contém spoilers.

 

Horizon Zero Dawn é um jogo que se passa em um futuro pós-apocaliptico, onde os humanos criaram máquinas de guerra com uma poderosa IA e com capacidade de consumir matéria orgânica proveniente de plantas, animais e humanos para conseguir energia. Essas máquinas fugiram do controle dos humanos, levando à extinção quase completa da vida na Terra. Mas antes do fim, um grupo de cientistas desenvolveu um plano: desenvolver uma IA independente chamada GAIA que ficaria responsável por recriar a biosfera capaz de sustentar a vida no futuro. Esta IA consistiria de diversos submódulos, cada um com uma funcionalidade distinta para recuperar nosso planeta e torná-lo habitável aos seres humanos novamente. A responsável pela ideia de criação de tudo é a cientista Elisabeth Sobeck.

 

Elisabeth Sobeck: “E se pudéssemos dar vida – um futuro? E se pudéssemos construir um tipo de semente, a partir da qual, em um planeta morto, a vida poderia florescer novamente? Este é o objetivo – a esperança – do Projeto Zero Dawn: criar um sistema de terraformação super-inteligente e totalmente automatizado – e trazer a vida de volta. O que esse sistema exigiria? Na sua essência, precisaria de uma verdadeira IA. Totalmente capaz de tomar os trilhões de decisões necessárias para reconstituir a biosfera. Um guardião imortal, dedicado ao re-florescimento da vida. Chamamos isso de GAIA. Mãe Natureza como uma IA. ”

 

| O Mundo de Horizon

No mundo de Horizon, os humanos pouco sabem sobre o passado. As memórias e conhecimento das antigas civilizações são um mistério. Tudo o que sobrou do mundo antigo são as ruínas de prédios, carros enferrujados abandonados e as máquinas. Devido ao recomeço da civilização, as pessoas voltaram a viver como tribos com costumes primitivos, e cada tribo tem suas próprias regras, religião e culturas no geral. O relacionamento destas tribos com a tecnologia é variada. Os Nora, tribo da protagonista Aloy, temem toda tecnologia dos antigos e se recusam a interagir com outras tribos, considerando elas como sendo impuras.

Devido ao medo causado pela falta de conhecimento sobre como as máquinas funcionam e como se proteger em muitas situações, os Nora temem objetos tecnológicos. Aloy foge à regra, já que no início do jogo encontra um objeto chamado “foco” em uma das ruínas dos antigos. Este foco é um dispositivo de realidade aumentada com a capacidade de encontrar inimigos, digitalizar documentos e localizar objetos relevantes. Com todo esse poder que é proporcionado a quem usa o item acaba por não ser visto com bons olhos pelos Noras, pois falta conhecimento para as pessoas para compreenderem seu funcionamento e utilidade.

Os Nora tem como religião um monoteísmo matriarcal, com uma Deusa chamada “mãe de todos”. Como todo o conhecimento do passado foi perdido, essa tribo idolatra uma máquina como se fosse uma deusa, não sabendo que, na verdade foi o ser humano que a criou.

Durante sua missão, Aloy entra na montanha da “mãe de todos”, local mais sagrado dos Nora, onde as matriarcas a levam até a Deusa. Nessa missão, fica claro para o jogador que a deusa nada mais é que apenas um portão com tecnologia que fala com a tribo usando uma voz feminina computadorizada. Esta é Gaia. Por falta de conhecimento do passado o povo venera este metal, o qual é considerado essencial para religião da tribo.

Em contraste, outra tribo chamada de Eclipse, idolatra uma máquina com voz masculina, chamadas Hades, localizada em outra região. Este foi criado com a responsabilidade de causar um novo apocalipse que destruirá o mundo caso GAIA falhe na sua missão de reconstrução, para que o mundo tenha um novo recomeço. Ele ajuda os Eclipse a controlar e comandar as máquinas corrompidas, mas a tribo não sabe que o objetivo do seu Deus é causar um fim do mundo, e apenas obedecem suas ordens, pensando que seu Deus os ajudará a conquistar e dominar as outras tribos.

No decorrer da história, referências a outros Deuses continuam a aparecer. Em uma das missões, que Aloy tenta descobrir mais sobre o passado, nos deparamos com um subsistema chamado Eleuthia, um dos subsistemas de GAIA responsável por reproduzir humanos e cuidar para que eles cheguem à fase adulta. Na mitologia, ela é a deusa do parto. Podemos perceber que em Horizon os Deuses sempre estão presente de alguma forma, pois na verdade eles fazem parte da criação dessa nova era. Na tabela abaixo, retirada do artigo mencionado na introdução, é fácil notar que os deuses são essenciais para o mundo de Aloy existir.

| Os Deuses

AIDescriçãoMitologia
AetherAETHER é um subsistema dedicado à desintoxicação da atmosfera devastada da Terra.Deus grego, deus primordial da personificação do Céu superior.
ApolloAPOLLO é um subsistema dedicado ao arquivamento da história e cultura humana, e a educação de novas gerações de seres humanos nascidos nas instalações do Berço.Deus grego do sol e da luz, música, verdade e profecia, cura, poesia.
ArtemisARTEMIS é um subsistema dedicado à criação e reintrodução da vida animal em uma Terra recém-formada.Deusa grega da caça, animais selvagem, região selvagem, parto, virgindade e protetor das meninas.
DemeterDEMETER é um subsistema dedicado ao replantio da Terra a partir de sementes criopreservadas;Deusa grega da colheita e da agricultura
EleuthiaELEUTHIA é um subsistema dedicado à clonagem e criação de seres humanos a partir de estoque genético em instalações de berço especialmente projetadas e preparadas pela TerraDeusa grega do parto e obstetrícia
GaiaGAIA é a I.A. principal supervisionando o repovoamento da terra. GAIA e seus subsistemas têm a tarefa de re-terraformar a Terra de volta à seu estado pré-apocalíptico.Deusa grega, deusa primordial da Terra.
HadesHADES é o “protocolo de extinção à prova de falhas” - o último recurso que permitiria destruir e redefinir o processo de terraformação quando um resultado indesejável fosse detectado.Deus grego dos mortos, dos Submundo, da escuridão, da Terra,
da fertilidade, da riqueza, da mortalidade, da vida após a morte e do metal.
HephaestusHEPHAESTUS é o subsistema dedicado à construção de instalações subterrâneas do Caldeirão que construiriam as máquinas necessárias para completar o projeto de terraformação.Deus grego dos ferreiros, da metalurgia, dos carpinteiros, dos artesãos, dos escultores, da metalurgia, do fogo e dos vulcões.
MinervaMINERVA é o subsistema dedicado à construção de matrizes de comunicação massivas para transmitir os códigos de desativação para os robôs apocalípticos.Deusa romana da sabedoria
PoseidonPOSEIDON é o subsistema dedicado à desintoxicação dos mares e oceanos envenenados da Terra.Deus grego do mar e outras águas, de terremotos e dos cavalos.

Então, estamos em um mundo onde o ser humano só pode existir devido às máquinas, é visível que estas tem mais poder, mais criatividade e mais produtividade que nós. As máquinas são responsáveis pelo planeta, tem o controle sobre ele e o dominam. São figurativa e literalmente, os deuses do mundo pós-apocalíptico.

| Conclusão

As religiões tribais antigas veneravam e deificavam aquilo que eles não conheciam, como as forças da natureza. Em Horizon Zero Dawn temos que as forças desconhecidas são as máquinas, já que os seres humanos dessa época desconhecem o que seria tecnologia, e coisas que para nós, é cotidiano, como uma voz saindo de um computador, para eles, é algo fantástico e incompreensível, portanto venerável.

Para concluir, o jogo Horizon Zero Dawn tem duas visões da tecnologia e IA, na primeira delas as tribos veneram máquinas devido à sabedoria, inteligência e poder que estas têm. Já na segunda visão as máquinas lhe proporcionam medo pela incompreensão e a falta de conhecimento que foi consequência do apocalipse.

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