Podemos criar uma medida de inteligência fluida com Portal 2?


| Introdução

Nos últimos 30 anos, os videogames têm sido usados como ferramenta de pesquisa para um melhor entendimento sobre habilidades, cognição espacial, inteligência e atenção.

O jogo Space Fortress, um jogo complexo criado por psicólogos cognitivos, é um exemplo de como os jogos podem ser usado para entender melhor a cognição do ser humano. Por meio deste, os pesquisadores conseguiram entender melhor a aquisição de habilidades por mais de 20 anos, em um ambiente complexo, controlado e que exigia altos níveis de habilidades perceptuais, cognitivas e motoras.

Existem dois tipos de inteligência a Fluida e a Cristalizada. A Fluida tem como objetivo resolver problemas imediatos, por meio de esperteza, prática, habilidade. A Cristalizada usa conhecimentos anteriormente adquiridos e teoria.

Este texto foi baseado no artigo “Can we create a measure of fluid intelligence using Puzzle Creator  within Portal 2?”, publicado pela George Mason University dos Estados Unidos. Neste artigo, o foco é no uso do jogo Portal 2 para medir a Inteligência Fluida. E o que seria Inteligência Fluida? É a capacidade do ser humano de resolver novas situações, independente do conhecimento previamente adquirido.

| Portal 2?

Para quem não conhece, Portal 2 é um jogo de Puzzle de 2011. O jogo consiste em uso de portais para resolução dos mais variados puzzles, sendo divididos primeiramente em salas e depois em andares.

Desenvolvido pela Valve, a responsável pela Steam, a maior loja de jogos online, o jogo recebeu muitos prêmios e foi considerado um sucesso de público e crítica.

Portal 2 foi escolhido para essa pesquisa por ser um jogo que constantemente apresenta novos problemas a serem resolvidos, além das mecânicas serem exclusivas permitindo a construção de diferentes puzzles. Outro forte diferencial é a facilidade para construir novos puzzle personalizados,  usando o próprio Puzzle Creator do jogo, que permite novas criações em diferentes níveis de dificuldades.

Então, neste jogo onde temos que encontrar a saída das salas, resolvendo puzzles com ambientes variados, dependendo de ativação de botões, rampas e pontes é possível usar muito a imaginação para criar diferentes problemas e regras. E isso é necessário pelo objetivo de medir inteligência fluida, que depende justamente em diferentes variações de cenários.

| Objetivo

O estudo contou com dezenas de participantes, que deveriam tentar completar o máximo de câmaras possível, medindo o tempo que elas levaram para concluí-las, e o quão difícil esses voluntários  consideraram cada câmara. Vale lembrar, que foram selecionadas pessoas que já jogaram Portal 2 antes e pessoas que nunca jogaram, para que a familiaridade com o jogo não afetasse o resultado final. Foram criadas 15 salas diferentes, planejadas de forma que as pessoas com experiência em jogos não tivessem vantagens, para que não precisassem de muita coordenação ou habilidades “gamer”, por exemplo, no caso que ocorre de ter que atirar um portal no meio de um salto. O foco está no processo de resolução de problemas para chegar até a solução. No total, temos 11 salas que introduzem uma mecânica nova, e 4 que fizeram uso de combinações de experiências já realizadas anteriormente, e cada sala tinha um tempo limite de 5 minutos para ser resolvida. Essas situações foram criadas em dificuldade de forma progressiva, como geralmente são os testes de inteligência fluida.

Para validar se os testes realmente estão medindo inteligência fluida, devemos ter uma base de comparação. No caso, foram utilizados dois testes já consolidados e confiáveis para medição dessa inteligência. São eles o Teste de Matrizes de Bochumer (BOMAT) e o Teste de Matrizes Progressivas Avançadas de Raven (RAPM). Ambos os testes apresentam ao voluntário uma matriz com diversas imagens, que seguem uma lógica, e o voluntário deve descobrir qual a próxima imagem da sequência. Então, além de cumprir as câmaras do Portal, elas também preencheram esses testes, e os resultados comparados.

| Resultado

O objetivo desta pesquisa era determinar se é viável desenvolver uma medida de inteligência fluida em um videogame disponível no mercado. Nossos dados fornecem a primeira evidência de que pode ser viável criar uma medida de inteligência fluida usando o Puzzle Creator no Portal 2. Ao comparar o resultado da resolução dos puzzles do game, com os resultados obtidos pelos voluntários nos testes usados como base, é possível afirmar que existe uma correlação entre os dois, isto é, pessoas com pontuações melhores nos testes também tiveram mais facilidade para resolver as câmaras do Portal. A bateria de testes do Portal 2 apresentou confiabilidade aceitável em ambos os estudos

Ter experiência prévia com videogames não influenciou essa relação. Como um dos objetivos era projetar uma bateria de teste relacionada à inteligência fluida, não à habilidade em videogame, ao não incorporar movimentos de alta habilidade de jogo, acreditamos que tivemos sucesso no projeto desses testes, e os dados confirmam essa posição.

De modo mais geral, se os testes desenvolvidos em videogames forem comprovados como medidas válidas e confiáveis ​​de inteligência fluida (ou outras habilidades cognitivas), pesquisadores e médicos teriam acesso a um método fácil e barato para pré-selecionar ou testar muitos indivíduos  a partir do conforto de suas casas, em um ambiente no qual se sintam à vontade.

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