Zelda e o Budismo

| Introdução

Esse post foi baseado no artigo “I Coveted That Wind: Ganondorf, Buddhism, and Hyrule’s Apocalyptic Cycle” escrito por Kathryn Hemmann no ano de 2019. O artigo publicado tem como objetivo se concentrar nas referências encontradas nos jogos da série Zelda focados na tradição religiosa Japonesa. A ideia principal é entender o papel dos vilões Ganondorf, Demise e Calamity Ganon nos ciclos de renovação do mundo do jogo.

A destruição causada pelos vilões do jogo não devem ser vistos de forma totalmente negativa, pois o processo de destruição é necessário para começar um novo ciclo de renascimento e renovação de Hyrule. Este seria o principal motivo do visual pós-apocalíptico do mundo de Zelda serem sempre tão convidativos, pois, mesmo após ter passado por situação difícil de fim do mundo, o recomeço sempre vem.

O filósofo Eliade identificou que muitas religiões de origem antiga têm a ideia de que o tempo é algo cíclico, e deu a isso o nome de “eterno retorno”. Para essas religiões, o “fim do mundo” não é um final, é apenas o começo de um novo ciclo, que é repetido por todo ser vivo em eternas reencarnações ao longo de eternos ciclos. Então no decorrer deste texto, mostraremos como essa ideia de ciclos ocorre com a história do reino de Hyrule.

Fica o aviso de que o texto conterá spoilers da história geral de Zelda, para podermos entender as ideias, mas nada que estragará a experiência que é jogar essas obras incríveis.

| História de Hyrule

No livro “A História de Hyrule”, que foi licenciado pela Nintendo e contém a linha do tempo oficial, temos a origem dos conflitos de Hyrule. Tudo se inicia com uma guerra entre a deusa Hylia e a entidade demoníaca Demise. Para proteger seu povo dessa batalha, chamados Hylians, a deusa criou ilhas voadoras no céu para que eles vivessem, antes de conseguir aprisionar o demônio dentro da terra

O selo colocado por Hylia, que mantinha Demise preso, enfraqueceu com o passar do tempo. No jogo “Skyward Sword”, Hylia é representada por sua reencarnação Zelda, que acaba por ser raptada por Ghirahim, servo de Demise, que pretende usar a princesa como sacrifício para ressuscitar seu mestre. Link consegue derrotar Ghirahim e Demise usando de uma espada mágica criada pela deusa, mas antes de desaparecer, o demônio lança uma maldição em Zelda e em todos os seus descendentes para que eles sejam sempre atormentados por sua malícia.

Já no jogo “Ocarina of Time”, a maldição de Demise se manifesta em Ganondorf. Este deseja a Triforce com o objetivo de se tornar o Rei de Hyrule, no lugar do pai de Zelda, mas devido ao desiquilíbrio em seu coração, a Triforce se parte e apenas um pedaço, referente à Triforce do Poder, permanece sob seu domínio. Usando do poder da Ocarina of Time, um artefato mágico. Link consegue viajar entre duas épocas, uma quando ele é criança e Ganondorf acabou de tomar o poder, e uma 7 anos depois, quando este reina como rei demônio. Zelda e Link eventualmente conseguem derrotar Ganondorf e prendê-lo no reino sagrado. No final, Zelda usa a Ocarina para enviar Link de volta ao passado, onde seria o lugar dele.

| Breath of the Wild

Em “Breath of the Wild”, temos Hyrule após um apocalipse, que é conhecido como a Calamidade, causado por “Calamity Ganon”. Em um tempo distante no passado, o reino desenvolveu máquinas de guerras gigantes chamadas de “Bestas Divinas”, além de Torres Sheikah, que se assemelham a torres de comunicação, e da Sheikah Slate, que é capaz de tirar fotos, mostrar sua posição no mundo, além de outras funcionalidades, análoga a um tablet. Por meios dessas tecnologias, Ganon foi derrotado. Porém, o rei dessa época considerou que essas tecnologias seriam perigosas demais se caíssem em mãos erradas, e ordenou que fossem enterradas.

Mil anos depois, o rei atual, e pai da princesa Zelda, ordena que essas tecnologias sejam escavadas novamente para auxiliar na batalha, pois foi previsto que Ganon voltaria. Assim ocorreu, e Ganon surgiu das profundezas do castelo, mas para surpresa de todos, Ganon conseguiu controlar as Bestas Divinas e os robôs para se tornarem seus aliados, atacando todos em volta. A entidade por fim é confinada dentro do castelo de Hyrule por Zelda usando o poder da Triforce, para que Link conseguisse se recuperar e estar pronto para lutar novamente.

Link acorda com amnésia, cem anos depois. A população de Hyrule diminuiu significativamente, e as cidades são poucas e distantes. Mas o mundo pós-apocalíptico que Link encontra é um mundo lindo, com cenários maravilhosos, espaços verdes, flores, oásis no deserto, muitas montanhas, regiões com neve. Como jogador, é muito comum pararmos horas e simplesmente apreciar isso tudo. Notem que o mundo não é vazio, ao contrário, é tão cheio que nos impulsiona a querer explorar cada canto para saber os mistérios escondidos ali. A sensação de liberdade e curiosidade é muito grande.

É interessante refletir que o mundo só ficou assim por causa da destruição causada por Ganon. A Calamidade aparenta ser algo cíclico desse mundo, já que sabemos que Ganon foi derrotado 10 mil anos antes. Este aparenta surgir sempre que o mundo alcança certo nível de desenvolvimento já que ele é o responsável por manter Hyrule sem grandes avanços como ferrovias, fábricas ou cidades. Se você é feliz de explorar um ambiente verde, sem poluição e longe de grandes centros, que sufocam pela sensação de estar preso com prédios infinitos ao redor, agradeça ao nosso vilão.

O ciclo de renovação é também apresentado na Lua de Sangue. Ela surge de tempos em tempos no jogo com o objetivo de ressuscitar os animais e monstros que Link matou, ou seja, o início do próximo ciclo, reiniciando as várias possibilidades de interação neste mundo.

A conexão entre Calamity Ganon e ciclos não é acidental. No livro “Breath of the Wild Master Works”, em colaboração com a Nintendo no ano de 2017, dizem que Ganon desistiu da ressurreição devido a sua obsessão por Hyrule, mas em japonês essa frase é escrita como “fukkatsu o akiramenu monen”. Aqui eles usam o termo Monen para descrever a obsessão de Ganon por Hyrule. Este termo é usado pelos budistas japoneses como apego, mas o apego ao desnecessário em nosso mundo, associado ao sofrimento. O conceito de Monen é usado para enfatizar como as coisas são passageiras no mundo, e que esse apego impede as pessoas de atingirem a iluminação. Com isso, mesmo após um novo ciclo, uma nova encarnação, o sentimento de apego ao que já se foi permanecerá. A revista Master Works então induz a crer que Ganon está preso dentro de um ciclo de sofrimento e reencarnação por causa desse apego de ter Hyrule para si.

Na cultura japonesa, existe o costume de que vilões sejam pacificados e convertidos, ao invés de mortos. Isso carrega a visão de que mostrar compaixão e esperança é o que leva a quebrar esse ciclo de dor, pois acreditasse que enfrentar a manifestação da maldade sem perpetuá-la. Na série Zelda, no entanto, a maldade de demônios como Calamity Ganon é o que conduz o ciclo de destruição necessário para a renovação de Hyrule.

| Conclusão

Os exemplos da inspiração da filosofia budista na série de The Legend of Zelda não ficam só por isso. Com mais de uma dezena de jogos lançados, The Legend of Zelda apresenta uma enorme gama de temáticas, heróis, vilões e mundos, mas todos eles apresentam algo para refletirmos, e uma temática que podemos explorar.

Os bons jogos sempre têm alguma mensagem a passar, mas os lendários te fazem mergulhar e aprender coisas que você nem percebeu que eles estavam te ensinando.

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