Entrevista com os criadores de Bem Feito


| Introdução

Bem feito é um jogo de gerenciamento com creepypasta, desenvolvido pelo estúdio indie brasileiro oiCabie. O jogo foi publicado no site Itch.io, e garantiu a nota máxima pelos usuários. Acessem a página do jogo para conhecer mais e apreciar esse jogo tão diferenciado. Ele está à venda por apenas 1 dólar.

Conheça um pouco sobre o projeto no vídeo abaixo:

Essa entrevista foi realizada com o objetivo de criar oportunidade de outras pessoas conhecerem mais sobre esse jogo brasileiro, e também para ajudar quem tem como sonho ser desenvolvedor de jogos no Brasil.

Agradeço à Carla Gabriela por responder nossas perguntas, e com isso permitir que este post fosse realizado.

 

| Entrevista

Garota no Controle: O que veio primeiro, a mecânica ou temática?

Carla Gabriela: Então, acho que o processo criativo sempre varia de pessoa para pessoa, projeto para projeto, e pelo menos para mim é um processo meio misturado. Inicialmente, o jogo nasceu de uma conversa com meu namorado (que é roteirista da nossa equipe), na frente de casa, fumando um cigarro. Debatíamos sobre skinner box e behaviorismo (debate iniciado num coletivo que participamos, o Peteca) e a gente foi pensando “que louco um jogo que brincasse com isso né?” e esse pensamento evoluiu para “isso é super assustador na real. Acho que dava um terror ein?”. Normalmente eu não separo temática da mecânica, a coisa vai fluindo durante o desenvolvimento do jogo mesmo, com o trabalho, com o tempo. E o disparar inicial é a vontade de empenhar esse trabalho.

 

Garota no Controle: Que jogos inspiraram Bem Feito?

Carla Gabriela:Ah são muitas influências né. Com certeza devem ter influências que nem eu identifico por serem meio inconscientes, mas eu diria que Harvest moon, a creepypasta do ben drowned, o jogo Off, Yume Nikki, Escaped Chasm e por aí vai.

 

Garota no Controle: Qual o diferencial do jogo Bem Feito?

Carla Gabriela: Muito difícil responder essa pergunta né? Não acho o Bem Feito algo tão fora do comum, então difícil apontar um diferencial. Pelo menos para mim o diferencial foi a maneira que criamos um meta por fora. Eu gosto muito de creepypastas, sobretudo ARGs, e a gente incorporou isso num jogo autoral, coisa que eu não vejo tanto por aí (mas deve ter aos montes, risos). Outra coisa que eu apontaria é que adaptamos o gênero found footage do cinema para o videogame (chamamos carinhosamente de found cartridge, risos) coisa que meio que já estava sendo feita, porém os jogos costumam mais puxar a ESTÉTICA do gênero para si. Nós, por outro lado, adaptamos a lore e remontou ela sob a perspectiva de outra mídia. A brasilidade eu não acho um diferencial, ainda bem, porque ela está aparecendo cada vez mais entre nossos joguinhos indie br, mas acho legal ressaltar que é uma questão importante para nós. Não sei se diria que é um diferencial, mas incorporar minha paixão por horror B (principalmente influenciada sobre o horror do Zé do Caixão) foi algo que eu gostei muito de fazer.

 

Garota no Controle: Qual o tamanho da equipe de vocês?

Carla Gabriela: Somos quatro colegas em sistema de cooperativa sem chefe, diretor nem patrão. Somos uma cooperativa de esquerda com muito orgulho! <3

E seguimos agora com 3 (um dos nossos colegas foi realizar o pós-doc dele e precisou se afastar). A gente divide tudo igualmente e não contrata ninguém de fora. Eu, Carla, sou a artista e programadora do jogo. O Yuri, o roteirista. O Casemiro é o trilhista e o Pedro, que saiu, era co-programador. Mas assim, nem a questão dos cargos é muito engessada/fixa entre a gente, temos uma dinâmica muito orgânica de fazer tudo muito junto, sem atropelamentos, que faz coisa funcionar de forma legal.

 

Garota no Controle: Quais as principais dificuldades encontradas para desenvolvimento e para conseguir que o jogo fosse publicado?

Carla Gabriela: Ah, acho que bugs são sempre uma dificuldade né? Risos. Eu odeio caçar bugs. Nossa, o testing foi um verdadeiro inferno. A revisão do texto e a otimização para deixar o jogo menor também, um pesadelo. Para publicar não teve dificuldade, nós só upamos mesmo, risos.

 

Garota no Controle: Pretendem lançar outros jogos?

Carla Gabriela: Sim, a gente não só pretende como estamos com dois a caminho (sim dois ao mesmo tempo). Eu estou fazendo um fora da equipe, um collab com um amigo meu (não posso revelar muito porque ainda é segredo), onde estamos eu, ele e meu namorado. Aguardem porque vai ser Show. E com a equipe mesmo estamos fazendo outro também chamado Homunculi. Tem bastante informações e previews que eu posto do Homunculi lá no meu twitter @oiCabie.

 

Garota no Controle: Qual foi o maior aprendizado que você gostaria de passar para outras pessoas, sobre produzir o próprio jogo?

Carla Gabriela: Ah, sei lá, não foi meu primeiro nem meu segundo jogo. Só foi meu primeiro que eu publiquei de forma ampla, por que eu sou muito insegura do que eu faço. Mas depois da recepção belíssima que tivemos, acho que o aprendizado foi de confiar mais em mim haha.

 

Garota no Controle: Sobre mulheres na área de desenvolvimento de jogos, o que você tem a comentar sobre isso?

Carla Gabriela: Bom, eu sou a única mulher da equipe, sou uma travesti, bissexual, intersexo e pobre então sim, tenho muitas coisas a dizer, haha. Só quero, para não me estender, deixar um recado sobretudo para outras travestis desse Brasil: tudo que a gente toca vira ouro meus amores, o mundo é das travesti! Bota a cara, perde a vergonha e se joga!

Eu acho que é inevitável, na sociedade como se propõe, romper com a hegemonia, mas a gente dá nosso jeitinho. Eu nem preciso dar voltas e voltas em como o mundo é machista e transfóbico, porque isso todas sabemos e estamos cansadas de ler. O sistema não é para nós e minha mensagem é: se o sistema não te quer, nem tenta negociar! QUEBRA ELE NO MEIO e faz o teu corre por fora 😉
Eu não me dobrei para ninguém, nem vou deitar para ninguém. É foda, é uma luta diária, tem altos e baixos, mas se tem um caminho para travesti nos jogos é pelo indie viu? Não é perfeito, mas tamo aí na luta. Eu não ficarei satisfeita até que toda travesti que quiser fazer jogo, o faça e seja ouvida. Minha luta é coletiva.

 

Garota no Controle: Que mensagem você gostaria de passar para aqueles que querem desenvolver jogos no Brasil?

Carla Gabriela: Eu meio que já respondi um pouco disso nas duas perguntas anteriores, mas gostaria de acrescentar que a gente (indie) NÃO precisa se espelhar no mercado, na indústria, no AAA. Eles não nos cabem, e nós não cabemos neles. A gente pode ir por fora, fazer o nosso e não depender deles saca? Indie é muito mais a fuder que AAA e todo mundo sabe disso. Então levanta a cabeça, te prepara para luta e joga a cara. Não é um caminho de flores, mas se todo mundo cooperar, a gente chega lá.

Não precisamos ser uma “outra versão do AAA”, nem precisa ser “um caminho para um dia chegar no AAA”. Nós podemos permanecer no indie e se estabelecer nele. A gente tem que aprender a confiar no nosso setor e se orgulhar de nós mesmos, sabe? Tem muita potência no independente e nós não somos poucos!

Quando a gente parar de tomar o “sucesso” do AAA como parâmetro paro NOSSO sucesso, o peito vai aliviar.
Se teu percurso mesmo assim é querer chegar no AAA? Ah colega, boa sorte, tamo junto também, mas assim, lembrar que ficar aqui, no independente, não é um patamar abaixo, não é um meio para um fim. Já pode ser pra nós o início, meio e fim.

 

Garota no Controle: Para vocês, é possível viver de jogos no Brasil?

Carla Gabriela: Haha, infelizmente não é pra todo mundo. Para mim, por exemplo, ainda não é. Mas não vou cruzar meus braços e aceitar isso calada. Faço parte de uma luta coletiva de emancipação e empoderamento dos colegas do setor contra o capital e suas plataformas de exploração. E assim seguirei. Não deito satisfeita até todo mundo puder viver de videogame em paz.

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